
Quando me mudei, há vinte anos, a rua onde moro tinha somente dois prédios recém-construídos, incluindo o meu. O terreno era vazio de casas, mas repleto de vegetação. Plantei, na calçada oposta à minha, oito pés de amendoeiras (Terminalia catappa), conforme manda a boa regra civilizada, ou seja, observando a disposição simetricamente enfileirada e respeitando recuo e espaçamento adequados, de modo que as árvores ao crescer não viessem suscitar questionamento sobre alguma potencial inconveniência de estarem, ali.
Segundo o provérbio, gato escaldado de água fria tem medo. Por isso mesmo certifiquei-me de que não havia rede elétrica, hidráulica ou telefônica. Observei a passagem da tubulação de esgoto e guardei uma distância segura para a construção da calçada.
Pois bem. Minhas amendoeiras que não são minhas e sim um patrimônio público, estavam a crescer viçosas sob o meu olhar atento, apesar de, vez por outra algum vândalo vir ameaçá-las com foice; e, lá estava eu a convencê-lo de que era ilegal mutilar as plantas. Um condômino descuidado, do meu prédio, outro dia, quis colocar seu caminhão no espaço entre uma árvore e outra sobre a calçada, com risco de atropelá-las, aí eu me pus no meio dos dois para que os vegetais não fossem machucados. Quando alguns vizinhos construíram um campinho de futebol próximo das jovens amendoeiras e o movimento de jogadores e torcedores começou a perturbar as plantas, com rapazes a agarrar-se às árvores quebrando seus galhos e subindo nelas para apreciar o jogo e, logo, os mais insensíveis, covardemente, ao galgar até a fronde ficavam a quebrar os galhos menores e atirá-los ao chão, resolvi tomar uma providência radical. Paguei alguém, à noite, para cavar valetas no gramado, inclusive, removendo a terra do local e quebrando as traves, enquanto um caminhão de pedras adquiridas de antemão era despejado no centro do gramado. Houve revolta e fui ameaçado, mas os vegetais ficaram em paz.
À medida que as árvores cresciam e começava a aparecer sombra, moradores da vizinhança passaram a colocar os seus carros debaixo, só que desleixadamente batiam portas e pára-choques nos troncos, quebrando os galhos mais baixos e atrasando o crescimento das árvores. A fim de evitar o abuso finquei mourões de concreto em volta das plantas e com isso ganhei a antipatia da comunidade.
De outra feita, caminhões enormes, com altura de carga superior à permitida por lei, ao transitarem com material de construção para uma galeria próxima, seccionaram vários galhos, obrigando-me a denunciar o crime aos órgãos tutelares (municipal, estadual, federal e ao Ministério Público). Por conta disso, uma vez ao chegar a casa encontrei à minha espera um indivíduo da largura de um guarda-roupa que ameaçou agredir-me. Com paciência e muita conversa convenci-o de que a comunidade necessitava das plantas pelos inúmeros serviços que elas prestam. Felizmente, ele foi embora sem me tocar.
Um dia, há três anos, observei uma empresa a fazer sondagem do terreno defronte à minha casa. Procurei saber do que se tratava e consegui alguns números de telefones do corretor, do comprador e do construtor da obra. O comprador foi indelicado e estava de posse de uma motosserra. Ligou-a e prometeu derrubar as árvores com elas. Fui à Delegacia, concomitantemente, com idas à SEMPMA (tutela municipal), IMA (tutela estadual) e IBAMA (tutela federal) além do MP. O comprador, paradoxalmente, um professor e dono colégio que mais tarde seria construído ali, jamais perdoou a “ofensa”. Poderoso, ele que era secretário municipal de Educação de Maceió fez várias investidas para prejudicar as árvores. Em uma delas despejou material ácido em volta dos troncos. Tratei das plantas com um agrônomo e fiz nova denúncia ao MP, sem sucesso. Posteriormente, o professor mandou uma pá carregadeira “apanhar” os resíduos da construção que haviam sido colocados embaixo das árvores. Cheguei exatamente no instante em que a pinça forçava as raízes de uma das amendoeiras. Pulei sobre a concha e fí-la parar. Comuniquei novamente a ocorrência ao Ministério Público. Insatisfeito, dias mais tarde, o professor mandou cavar uma cisterna junto à calçada, arrancando raízes de uma das amendoeiras. Protestei, mas ele não desistiu. Disse que estava cavando no terreno dele e terminou por concluir o serviço. A árvore agredida ficou entre a vida e a morte por vários dias.
Certa manhã, bem cedo, fui despertado pelo barulho de motoserras. Mal pude vestir-me e correr para o local a tempo de impedir o trucidamento das árvores, embora uma delas houvesse já perdido um fuste. Um rapaz com uma pasta mostrou-me a autorização da SEMPMA para suprimir cinco das oito amendoeiras, a pedido do Professor. Não deixei. Fiz-me de valente, derrubei uma motosserra das mãos de um peão e não sei como explicar evitei a agressão, pois que a polícia foi acionada e alguns vizinhos vieram ajudar, depois de muito chamamento. Chegaram também diversos amigos meus do rádio e fizeram uma confusão danada. À polícia mostrei o texto da lei (Lei 9605/97, artigo 49) e fiz ver aos policiais que ninguém está acima da Lei, nem mesmo o Secretário da SEMPMA. O pessoal do órgão ambiental foi embora ameaçando voltar depois.
Não voltou, porém. Eu soube que o MP havia tomado uma atitude.
Recentemente, vi uns trabalhadores braçais limpando o terreno ao lado das amendoeiras, no fundo do Colégio. Pedi que eles não viessem mutilar as árvores. Mais tarde o porteiro do meu prédio avisou-me que um rapaz havia podado os galhos de uma amendoeira e estava a esperar por mim para conversar. Desci munido de um gravador, de uma câmera fotográfica e do meu celular. O rapaz estava com um facão, o mesmo com que havia cortado os galhos da amendoeira. Olhou para mim e disse que fora ele o responsável por aquilo e não me temia. Informei que ele havia cometido um crime e que eu iria denunciá-lo ao MP. Ele riu de mim e disse que o mandante era o dono do Colégio e que eu fosse brigar com ele. Gravei tudo e fotografei o facão na mão do agressor. Está tudinho na última denúncia que encaminhei ao Ministério Público Estadual.
Hoje, as árvores ainda estão lá, porém não sei até quando. Estou velho e cansado dessa luta, no próximo ataque talvez eu sucumba e as amendoeiras morram.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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